Radar económico

Por que é que a inflação pode ser benéfica?

3 Novembro, 2017

“Um bocadinho” de inflação até daria jeito à economia portuguesa. Estranho? Talvez não.


O paradoxo da Inflação

Nos últimos tempos, tem sido frequente ouvir-se que tanto Europa como Portugal precisam de inflação. Este tipo de afirmação causa uma certa estranheza, pois não estamos habituados a associar inflação a uma coisa positiva.

Ainda não há muitos anos, a subida generalizada dos preços (a inflação) era encarada como o inimigo público nº 1 dos países. Governos ganhavam e perdiam eleições por causa do comportamento da inflação. Fomos habituados a relacionar a inflação à perda de poder de compra e à perda de confiança no dinheiro. E, em parte, este raciocínio é verdadeiro, o que nos poderá levar a deduzir intuitivamente que o ideal será eliminar por completo o fenómeno da subida generalizada dos preços ou mesmo alcançar uma descida dos mesmos (deflação). No entanto, às vezes a intuição não está correta.

E é aqui que surge o paradoxo da inflação. É preciso “um bocadinho” de inflação para a economia crescer saudavelmente. Por outras palavras, quando a inflação atinge valores muito próximos de zero ou mesmo valores negativos (deflação), a economia começa a funcionar mal, tal como o corpo humano quando atinge temperaturas perigosamente baixas (hipotermia).

Como é que a inflação pode ser positiva para economia?

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Tal como a temperatura corporal deverá estar entre os 35º e os 37º para que o corpo humano funcione bem, também a temperatura de uma economia medida pela inflação deverá andar entre os 2% e os 3%. Dito de outra forma, uma inflação moderada ajuda a economia a funcionar. Vejamos como.

Imagine-se que se espera uma inflação anual de 2% para Portugal. Isto significa que em média os preços dos produtos e serviços consumidos pelos portugueses vão ficar 2% mais caros no próximo ano. Perante isto, o que é que uma pessoa costuma fazer enquanto consumidor? Se para o próximo ano “o preço das coisas” vai ficar mais elevado, então talvez seja melhor fazer mais compras este ano, pois no próximo ano “as coisas” serão mais caras.

Quando várias pessoas pensam da mesma forma, a inflação vai impulsionar as decisões de compra (Procura) no curto prazo. Em resultado deste acréscimo da Procura, as empresas vendem mais e isso estimula-as a produzir mais (Oferta), o que as torna mais disponíveis a contratar trabalhadores. Isso cria um ciclo virtuoso entre a Procura e a Oferta, impulsionando o crescimento económico e o emprego.

Deflação: Como é que o inverso da inflação pode ser perverso para a economia?

À primeira vista poder-se-ia pensar que o inverso da inflação (a deflação) seria positivo para o crescimento económico e para o emprego. Todavia é exatamente o oposto.

Imagine-se agora que se espera para Portugal uma variação negativa dos preços dos produtos e serviços na ordem dos -1% ao ano. Quer isto dizer que em média os preços das coisas vão ficar 1% mais baixos.

Perante a expetativa que as coisas em geral fiquem mais baratas, a tendência do consumidor poderá ser a de adiar o timing das suas compras, por forma a diminuir os seus custos. Por outras palavras, no curto prazo, a deflação inibe a Procura. Do lado da Oferta, com a diminuição das vendas, as empresas ficam menos confiantes, o que as poderá levar a adiar investimentos e a despedir pessoas. Este tipo de dinâmica pode rapidamente criar um ciclo vicioso entre a Procura e a Oferta, em que o cenário de recessão económica se torna mais provável.

Uma inflação moderada de 2%, que se repita durante alguns anos, diminui muito a probabilidade que a deflação e seus efeitos perversos se instalem na economia.

Inflação: sintomas e causas

Como vimos anteriormente, é possível fazer-se uma analogia entre a temperatura do corpo humano e a inflação de uma determinada economia.

Neste artigo explorou-se mais o que é a “temperatura” desejável para uma economia (inflação moderada) e descreveu-se o caso particular da “hipotermia” económica (deflação). Mas haverá outros tipos de inflação que sejam prejudiciais para a economia? E quais são os fatores principais que explicam a variação dos preços? Como se calcula a inflação? Questões importantes que merecem resposta.

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