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Américo Amorim: o rei da cortiça que foi dos 500 escudos aos milhões

19 Outubro, 2017

“O homem mais rico de Portugal”, “rei da cortiça”, “hiperativo”. É assim que será lembrado Américo Amorim, que disse adeus ao mundo em 2017. Conheça a sua história e o seu legado que fica agora nas mãos das mulheres da sua vida.


O homem mais rico de Portugal

Na manhã de 13 de julho de 2017, o coração de Américo Amorim falhou. Uma pneumonia acabaria por ditar que era altura de dizer adeus aos 82 anos. Ficou a 8 dias de chegar aos 83 e para trás ficou o seu legado empreendedor, uma carreira de 66 anos sem igual no mundo dos negócios e uma grande fortuna. Américo Amorim, o homem mais rico de Portugal, tinha um lugar garantido no Top 500 dos homens mais ricos do mundo da Forbes e este ano integrou a lista de Billionaires na 385ª posição, graças aos seus 3,9 mil milhões de euros. Um valor muito longe do seu primeiro ordenado: recebeu na altura 500 escudos mensais, isto é, 2.50€.

Ainda assim Américo Amorim, do alto do seu imponente 1 metro e 80, até levava um estilo de vida simples. Sim, apesar da fortuna e do seu estatuto gostava de almoçar num restaurante em Espinho chamado Zizi, onde podia comer marisco e peixe por 12 euros. Ou mesmo na cervejaria junto à sua casa no centro do Porto, a Capa Negra. Além disso, só trocava de carro de nove em nove anos e nunca fez questão de comprar carro novo: orgulha-se de ter comprado um carro de serviço que lhe ficou bastante em conta. E voava frequentemente em classe económica!

Cortiça: o negócio de família

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O percurso de Américo Amorim nos negócios começa quando recebe de herança 2,5% de uma fábrica de rolhas que o seu avô tinha fundado e um hectare de terreno em Mozelos, Santa Maria da Feira, onde nasceu. Foi aí que, com apenas 18 anos, e ao lado dos seus irmãos, começou a construir um conglomerado corticeiro. E embora tivesse um Curso Geral de Comércio, foram os os ensinamentos do tio Henrique que mais contribuíram para o seu percurso. Américo ficou órfão de pai e mãe aos 19 anos e o tio ocupou o lugar de role model na sua vida.

O negócio, esse, permaneceu na família desde 1870 e vale hoje 1,65 mil milhões, mas desengane-se se pensa que Américo Amorim vinha de um meio muito abastado. O “Rei da Cortiça” era o quinto de oito filhos e só teve o seu primeiro par de sapatos quando chegou à quarta classe. Reza a história que foi a sua visão e olho para o negócio que o levaram longe. Isso e as suas viagens pelo mundo, que considerava a sua “universidade”.

Américo Amorim gostava ainda de partilhar conhecimento. Era conhecido por ter uma atitude informal na empresa, tratar os funcionários por tu e oferecer textos que o marcavam. Por exemplo, em 2003 vários estagiários do grupo receberam o livro Quem Mexeu no Meu Queijo?, de Spencer Johnson, que aborda a questão da resistência à mudança.

Irreverente, Américo Amorim furou a “cortina de ferro”

Com a Corticeira Amorim nas mãos, o sonho do empresário português era só um: chegar à liderança mundial da produção e distribuição de cortiça e dos seus produtos associados. Para tal teve mesmo de furar a conhecida “cortina de ferro”, que separava a Europa de Leste da Ocidental, porque era imperativo fazer negócios no leste da Europa e na ex-União Soviética. E não ficou por aqui. Contornou o condicionalismo industrial que controlava a criação de novas empresas e produtos durante o consulado de Oliveira Salazar e chegou mesmo a comprar alvarás, algo que a lei proibia. Aquando do 25 de abril não saiu afetado porque já praticava algumas das regalias exigidas pelos trabalhadores.

O “rei da cortiça” no mundo do petróleo e da banca

Mas como é que Américo Amorim colocou o Grupo Amorim na história? Apostou na diversificação em diferentes setores – imobiliário, financeiro, telecomunicações e turismo – e na expansão a outras áreas geográficas mais rentáveis como Espanha, Austrália, Alemanha, EUA, etc.

Considerado “hiperativo” por quem o conhecia bem de perto, Américo Amorim não se ficaria pela cortiça. Tinha uma visão abrangente do mundo e é certo e sabido que acabaria por explorar outros interesses e paixões. Um deles era o petróleo. Grande parte da sua fortuna deve-se também ao facto de deter uma participação de peso na Galp – e que foi muito impulsionada pela descoberta de petróleo no Brasil. A entrada no negócio da banca foi outra aposta ganha.

O sucesso deste homem de pontualidade britânica e que não tolerava atrasos – é assim que se perdem oportunidades no mundo dos negócios – sedimentou-se década após década. Firmou parcerias com grupos e empresários espalhados por todo o mundo, criou e vendeu empresas a um ritmo vertiginoso, antecipando as tendências de mercado, e, sobretudo, foi mestre no controlo dos gastos!

No entanto, o caminho não se fez sempre a subir. Suspeitas de fraude na aplicação de 2,5 milhões de euros do Fundo Social Europeu, fugas ao fisco e perda de investimentos avultados são alguns aspetos menos bons de um currículo cheio de vitórias.

Quem sucede a Américo Amorim nos negócios?

Do casamento com Maria Fernanda Oliveira Ramos, em 1969, nasceram três filhas, Paula, Marta e Luísa, com 1 ano de diferença. Juntas representam a quarta geração da família Amorim. E quando em 2016 o empresário começou a sentir o peso dos problemas de saúde, o seu sentimento de eternidade ficou abalado e decidiu passar o testemunho à sua filha mais velha, Paula Amorim (na foto), agora com 46 anos.

A passagem de testemunho não foi difícil, uma vez que Paula Amorim já estava por dentro dos negócios. Formada em Gestão Imobiliária, começou aos 20 anos a trabalhar lado-a-lado com o seu pai na área imobiliária, florestal e agrícola e durante quatro anos foi vice-presidente da Galp. Por isso é natural que a braço-direito de Américo Amorim tenha assumido a presidência do Grupo Américo Amorim e da Galp.

Já a herdeira Marta Amorim é licenciada em Gestão de Empresas, tem cargos dentro do Grupo e desempenha funções dentro de várias empresas detidas pela família. A filha Luísa, depois de ter passado por todas as áreas da corticeira ficou à frente do negócio de vinhos do grupo na Quinta Nova de Nossa Senhora do Carmo e na Quinta de S. Cibrão, no Douro. É formada em Hotelaria e Marketing.

No fundo, Américo Amorim era um homem de família e conseguiu através da suas sucessoras dar um seguimento pacífico ao império cunhado com a sua identidade. E ainda contou com a ajuda de dois genros: o marido de Marta é o vice-presidente da Corticeira Amorim e tem vindo a somar responsabilidades dentro das várias empresas, já o de Luísa está na administração da Amorim Holding II SGPS, SA.

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