Saúde

Para que servem as células estaminais?

6 Outubro, 2017

As células estaminais têm um superpoder único: conseguem substituir células lesadas e regenerar tecidos danificados. Saiba em que casos podem ser usadas e que doenças podem ajudar a tratar.


Células estaminais: o que são?

As células estaminais caracterizam-se pela sua capacidade única de autorrenovação ilimitada. Sabia que, dependendo da sua origem, podem transformar-se em todos os tipos de células do organismo? Exemplo disso são as células estaminais embrionárias: estas células são pluripotentes e podem diferenciar-se nas três camadas germinativas embrionárias, isto é, a endoderme, mesoderme e ectoderme.

Já as células estaminais não embrionárias – ou células estaminais adultas – estão presentes em muitos tecidos do organismo adulto como a medula óssea ou o tecido adiposo. E regra geral são multipotentes. Além disso, também podem ser encontradas populações de células estaminais adultas com um elevado potencial proliferativo e características pluripotentes em alguns tecidos neo-natais como a placenta, a geleia de Wharton do cordão umbilical ou mesmo o sangue do cordão umbilical.

Mas porquê é que nos últimos anos as células estaminais estão a ser alvo de vários estudos e investigações? Ora, porque a capacidade que têm para se diferenciarem em vários tipos de células permite que possam substituir células lesadas ou destruídas e regenerar os tecidos danificados. O que explica o grande interesse da sua utilização em terapia celular – para combater células cancerígenas – e em casos de medicina regenerativa.

É possível tratar o cancro com células estaminais?

Ler Mais

Na origem de um cancro está normalmente um problema que ocorre durante o processo de regeneração celular. Quando as células sofrem alterações no seu ADN tornam-se cancerígenas, reproduzindo-se de forma desnecessária e descontrolada. E como as células estaminais têm capacidade para reparar, regenerar e substituir as células danificadas, não é por isso de estranhar que estejam a ser utilizadas para combater determinados tipos de cancro.

Segundo um estudo recente publicado pelo Centro Nacional de Biotecnologia, nos Estados Unidos, há evidência científica que as células estaminais mesenquimais podem ser um importante agente anti-cancro e que as terapêuticas com base neste tipo de células têm tido resultados promissores.

Reparar o coração através de células estaminais mesenquimais

As células estaminais mesenquimais têm uma grande vantagem face às células estaminais hematopoiéticas: enquanto as células do sangue do cordão umbilical só podem ser utilizadas uma vez, as células do tecido podem ser multiplicadas em laboratório, possibilitando assim mais que uma utilização.

Além disso, como as células mesenquimais são as peritas em reparação e regeneração, estão a ser utilizadas em medicina regenerativa. Em Portugal, por exemplo, são utilizadas na regeneração cardíaca, ou seja, para tratar miocardiopatias e enfartes do miocárdio. Como? Já é possível injetar as células estaminais diretamente no músculo cardíaco e assim recuperar o miocárdio estragado.

No entanto a sua aplicação está para ser alargada: as células estaminais mesenquimais estão a ser estudadas para o tratamento de doenças auto-imunes como a Doença de Crohn, artrite reumatóide ou esclerose múltipla. A razão é simples: como são imunomoduladoras conseguem alterar o sistema imunológico deficiente permitindo que este volte a ter um comportamento normal.

As células do cordão umbilical

A eficácia dos tratamentos à base de células estaminais está comprovada ainda ao nível do tratamento de leucemias agudas, leucemias crónicas, linfomas, doenças hereditárias do sistema imunitário, entre outras. A crescente aplicação destas células na saúde tem levado cada vez mais pessoas a criopreservar as células estaminais do cordão umbilical na altura do nascimento.

As células estaminais do cordão umbilical estão presentes no sangue e no tecido e têm diferentes características. As que se encontram no sangue chamam-se hematopoiéticas e são precursoras de todas as células sanguíneas e do sistema imunitário. Neste momento já são usadas como tratamento em doenças nas quais é necessário regenerar o sistema sanguíneo e imunológico de um doente e, no geral, estão mais estudadas.

Por sua vez, o tecido do cordão umbilical é rico em células estaminais mesenquimais, que podem diferenciar-se em qualquer tipo de célula do organismo, desde as células que originam os ossos e as cartilagens, às dos músculos e do tecido adiposo, mas também às células sanguíneas e do sistema imunitário. Mas como “não há bela sem senão”, a quantidade de células disponíveis no tecido do cordão umbilical é ainda menor do que no sangue do cordão e ainda se sabe pouco sobre elas.

Preservar as células estaminais: uma decisão pré-parto

Ter um plano B no que toca à prevenção de certas doenças é o que tem motivado muitos pais a optar pela criopreservação das células estaminais presentes no sangue e no tecido do cordão umbilical. No entanto, é preciso ter em atenção que a decisão de conservar as células estaminais tem que ser tomada meses antes do termo da gravidez. Isto acontece porque é necessário recolher informação clínica completa dos pais e informar o médico assistente da opção.

O processo é rápido, não invasivo e totalmente indolor e é semelhante em todas as empresas privadas que se dedicam à criopreservação das células estaminais. Depois de feita a recolha do sangue do cordão umbilical no dia do parto, a amostra vai para laboratório. É lá que é pesada e são separados os vários componentes – glóbulos vermelhos, plasma e células estaminais – através de uma centrifugadora. Segue-se um controlo de qualidade para detetar infeções por bactérias ou vírus, contar o número de células estaminais e avaliar a viabilidade celular.

As amostras são, depois congeladas em recipientes próprios e criopreservadas por um prazo máximo de 25 anos. Este é o tempo máximo de contrato porque é, até ao momento, o tempo considerado como viável. Após este prazo o cliente pode renovar o contrato, destruir as células ou doá-las para outros fins.

Há um banco público de células estaminais!

Desde 2009 que há um banco público português de células estaminais, o Lusocord. Mas em que difere de um privado? É que enquanto nos bancos privados as células estaminais só podem ser usadas pelo próprio dador, o irmão ou um familiar, os bancos públicos de células do cordão umbilical têm como objetivo chegar a todas as pessoas que delas precisem.

Para aumentar a probabilidade de se encontrar dadores compatíveis o banco público de células estaminais além de apostar na diversidade de perfis genéticos está também integrado numa rede internacional permitindo assim que os cidadãos de um país recebam transplantes de dadores de outros países.

Ler Menos