Saúde

A relação médico-paciente é importante para a cura?

8 Junho, 2017

A confiança entre médico e paciente tem um peso relevante no processo de cura: quanto mais forte for, mais os tratamentos são seguidos à risca. Saiba porquê.


Confiar pode curar?

Se um paciente não confiar no médico que o segue durante um tratamento aumenta a probabilidade de insucesso da cura? Sim! E é o que revela o estudo publicado pelo General Hospital Psychiatry realizado a 119 pessoas com cancro da mama, cervical, intestinal ou da próstata. Durante a investigação, chegou-se à conclusão de que passados três meses desde o diagnóstico os doentes que não confiavam no seu médico não só estavam mais angustiados como se sentiam mais incapacitados fisicamente.

Os investigadores concluíram ainda que não confiar no médico diminuia também as probabilidades de os pacientes se sentirem capazes para dar longas caminhadas ou até mesmo a vontade de cuidarem de si próprios. E mais: os pacientes que se sentiam ansiosos com a ideia de rejeição e abandono eram precisamente aqueles que mais se ressentiam por não conseguirem confiar no seu médico. Curioso, não é?

Já se a relação de confiança entre médico e paciente for boa, há maior predisposição para experimentar novos medicamentos, seguir à risca o plano de tratamento, partilhar importante informação médica ou tomar medidas preventivas. Além disso, estes doentes também apresentaram níveis de tensão arterial e diabetes mais controlados.

A empatia clínica treina-se

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Se os estudos demonstram que a confiança pode ajudar na cura, o que podem os médicos fazer para aumentar essa confiança e potenciar o tratamento? Encarar os problemas do paciente com seriedade, envolvê-lo nas decisões, bem como saber conversar e ouvir são alguns pontos de partida para treinar a chamada empatia clínica.

Ser um bom médico vai além do conhecimento sobre uma determinada área, porque, afinal estamos a falar de uma profissão que lida diariamente com pessoas. Foi com esta ideia em mente que a Faculdade de Medicina de Duke, em conjunto com a Universidade de Pittsburgh e outras escolas médicas, criou o Oncotalk, um curso destinado a ensinar os profissionais da área a desenvolver a empatia clínica.

Falamos da capacidade que um médico tem para se colocar no lugar do paciente, transmitir compreensão pela situação e de se sentir motivado para ajudar. Vários estudos indicam que a empatia é essencial para estabelecer a confiança, que é a base da relação médico-paciente. E os benefícios não são só para o doente: vários estudos indicam que adotar uma atitude empática diminui o burnout dos profissionais de saúde e o risco de cometer erros.

Mas a empatia não é algo inato? É verdade que algumas pessoas são naturalmente empáticas e outras nem tanto. Em todo o caso, esta aptidão pode ser trabalhada e ensinada. Segundo o investigador do Jefferson Medical College Mohammadreza Hojat, a empatia é um atributo cognitivo e não um traço da personalidade. Assim, é possível que esta “disciplina” faça parte da formação dos médicos.

Em que consistem os ensinamentos de empatia? 

Um curso de empatia clínica foca-se em pormenores que ajudam a fortalecer a relação médico-doente. Falamos, nomeadamente, de estabelecer contacto visual com o paciente, evitar um monólogo médico e ter cuidado com o tom de voz. Sabe-se que a forma como se transmite a informação pode ser mais relevante para o doente do que propriamente aquilo que está a ser dito.

Em Portugal, estes “ensinamentos” ganham voz através do Projeto Medicina & Narrativa — (Con)textos e Práticas Interdisciplinares, sediado no Centro de Estudos Anglísticos da Universidade de Lisboa.

Como é que o cérebro reage aos sentimentos de confiança?

Um grupo de investigadores do Baylor College of Medicine e do California Institute of Technology conseguiu visualizar o desenvolvimento de sentimentos de confiança numa região específica do cérebro. Para tal juntaram pessoas anónimas aos pares, ligaram-nas a scanners de ressonância magnética e pediram-lhes que participassem num jogo de 10 rondas consecutivas que envolvia o equilíbrio entre o lucro e a confiança.

Entretanto os scanners, sincronizados através da internet, mediam a reação no cérebro. E o que viram os investigadores? Que o aumento do sentimento de confiança no jogo conduzia ao aumento do fluxo sanguíneo numa área do cérebro que está relacionada com o processo de recompensa e que nos faz sentir bem. Aliás, à medida que a expetativa de confiança se ia estabelecendo, com o passar do tempo, verificaram também que o aumento deste fluxo sanguíneo ocorria mais cedo.

Os cientistas concluíram assim que esta área do cérebro parece ter um papel central na correta avaliação dos atos de outra pessoa e na sinalização da intenção de confiar nela. Mas o que quer dizer isto tudo afinal? Que a confiança e a empatia têm efeitos comprovados no nosso cérebro e que, como vimos, podem melhorar o bem-estar dos intervenientes.

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