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José Fragata: 30 anos a manusear corações

24 Maio, 2017

No currículo conta com mais de 10 mil cirurgias e foi o primeiro a implantar um coração artificial em Portugal, em Março deste ano. Quem é José Fragata, o cirurgião cardiotorácico do momento?


O primeiro a implantar um coração artificial

O médico-cirurgião José Fragata não é novo nestas andanças. Tem 63 anos de idade – 30 deles foram passados no bloco como cirurgião cardiotorácico – e conta com mais de 10 mil cirurgias no currículo. E se por um lado a experiência o tornou rigoroso, intolerante ao erro – ao seu e dos outros – e apto a manusear corações com uma elevada mestria, admite, por outro, que nunca chegou a aprender a lidar com a dor de perder um paciente. No entanto, nunca deixou que essa “incapacidade” o fizesse virar costas a um novo desafio.

Para José Fragata, a entrada no bloco do Hospital de Santa Marta, em Lisboa, começa sempre com música. Mas o dia da implantação do primeiro coração artificial em Portugal não começou assim: a colocação do aparelho que ajuda o coração a bater do lado esquerdo exigia uma concentração maior do que a habitual. E bastaram apenas quatro horas para que Fragata e a sua equipa fizessem a magia acontecer. Deram mais 10 anos de vida a um doente com 64 anos que sofria de uma grave insuficiência cardíaca.

Como a magia acontece

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O cirurgião explica que, no fundo, este aparelho é uma bomba de levitação magnética que aspira o sangue da ponta esquerda do coração e o injeta na aorta. Esta por sua vez encontra-se ligada por um cabo que sai da parede abdominal do paciente e que se liga a um conjunto de baterias – que o próprio doente transporta consigo. Depois há que recarregar: após 17 horas é preciso ligar a um carregador, como se de um telemóvel se tratasse. E a pessoa nem dá por ele, garante José Fragata.

Fonte: Diário de Notícias

Muito embora este tenha sido o primeiro paciente a receber este tipo de tratamento no nosso país, no mundo existem outras 1.199 pessoas que transportam consigo o modelo HeartMate 3 – o ex-vice-presidente dos EUA Dick Cheney é um deles.

Cirurgia surge por acaso do destino

José Fragata é hoje uma referência na cirurgia cardiotorácica, mas quando é que começou a paixão pela medicina? O cirurgião confessa que nunca sofreu qualquer tipo de pressão familiar – o pai era engenheiro – mas que desconfia que terá começado bem cedo porque se recorda de uma fotografia em que estava disfarçado de médico aquando de uma festa de carnaval. Tinha apenas quatro anos. Ou talvez tenha sentido o chamamento quando acompanhou de perto a doença crónica da sua mãe.

O que é certo é que, quase sem dar por isso, grande parte da sua vida seria passada dentro do hospital. E a da sua família também: para além da mulher – a diretora de anestesia Isabel Fragata, com quem partilha tantas vezes o bloco operatório -, também uma das suas filhas lhe seguiu as pisadas médicas, ao especializar-se em neuro-radiologia.

No entanto, o médico diz que foi a cirurgia que o escolheu a ele e não o contrário. Estava num congresso, em 1978, para apresentar os resultados da sua investigação de circulação pulmonar quando um professor de cirurgia cardíaca do Porto que fazia parte da plateia o convidou a exercer cirurgia cardíaca no Hospital em Santa Cruz. Curiosamente, José Fragata foi até lá para ver o espaço e nesse mesmo dia ficou logo a trabalhar na urgência. Hoje é diretor do Serviço de Cirurgia Cardiotorácica do Hospital de Santa Marta, professor catedrático de cirurgia e trabalha na CUF.

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