Saúde

Efeito placebo: o que é e como funciona?

9 Maio, 2017

A Ciência tem vindo a mostrar que aplicar “tratamentos falsos” tem efeitos reais em alguns pacientes. Mas como? A explicação está no chamado efeito placebo.


O fenómeno placebo

O efeito placebo acontece quando é administrada uma espécie de tratamento “falso” a um paciente, isto é, um medicamento ou outro tipo de terapia que não deveria ter qualquer efeito, mas que acaba por trazer melhorias. Mas como é que isto se explica? Os neurocientistas descobriram que em algumas situações – como por exemplo nas de dor – o placebo tem um efeito biológico semelhante àquele que é causado pelas drogas. Mesmo que se trate de apenas de um comprimido de açúcar!

O que acontece no cérebro?

Um placebo disfarçado de comprimido para as dores, por exemplo, faz com que a atividade em determinadas áreas do cérebro e da espinal medula relacionadas com a dor seja abafada. Mas não só. Ao mesmo tempo estimula a libertação de endorfinas, as substâncias químicas naturais produzidas pelo cérebro que têm um poder analgésico e que alguns comprimidos opioides estão designados para imitar.

E ao contrário do que possa pensar, há pacientes que se sentem melhor mesmo sabendo que estão a ser tratados com um comprimido placebo. Uma investigação publicada na revista científica Pain revelou que um grupo de 97 pessoas com problemas lombares crónicos registou uma redução de 30% da dor normal, bem como da dor máxima. A experiência comprovou que o placebo ativa as regiões do cérebro que modulam os sintomas e o seu efeito pode ser conseguido mesmo sem enganar o doente!

O poder da conversa placebo

Se um comprimido falso faz o que faz, acredite no que pode fazer uma boa conversa entre médico e paciente. Sabe-se agora que pode ser um analgésico tão eficaz como outras formas de tratamento. Investigadores no Canadá avaliaram o papel da comunicação no caso das dores nas costas e descobriram que as pessoas que se submeteram a um “tratamento simulado” mas que tinham terapeutas que comunicavam ativamente sentiram a sua dor diminuir para mais de metade.

Outros estudos que envolvem placebos revelaram ainda que há um poder curativo por detrás das interações sociais ao nível do tratamento da dor. Foi o que apurou um grupo de investigadores de Harvard. Durante as suas investigações perceberam que 44% dos doentes com Síndrome do Intestino Irritável que tinham recebido um tratamento placebo de acupunctura – isto é, em que não são inseridas as agulhas – sentiram um alívio dos sintomas. E nos casos em que o profissional demonstrou empatia e um apoio extremo, os resultados subiram para 62%.

Placebo: porque só funciona com algumas pessoas?

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A resposta pode estar nos genes. Um artigo dos investigadores do Programa para os Estudos do Placebo publicado no Trends in Molecular Medicine, revela que a eficácia do efeito placebo está relacionada com os níveis de neurotransmissores – dopamina e serotonina – que enviam mensagens de bem-estar ao cérebro. Além disso, explica também que a forma como os neurotransmissores se movimentam através do cérebro varia de acordo com os genes de cada pessoa, o que pode explicar o porquê de funcionar melhor numas do que noutras.

A resposta para tratar as insónias

Os portugueses dormem pouco, de acordo com a Associação Portuguesa do Sono (APS). E pelos vistos muito mal. Alguns estudos revelam que quase 30% da população portuguesa com mais de 18 anos de idade sofre de sintomas de insónia, pelo menos três vezes por semana. Mas e se lhe disséssemos que os placebos podem contornar a situação e dar uma resposta a esta perturbação do sono?

Pelo menos é o que um estudo publicado na revista Brain avança agora. Uma equipa de investigadores liderada por Manuel Schabus da Universidade de Salzburgo, na Áustria, recrutou 30 pessoas que sofriam de insónias primárias e dividiu-as em dois grupos. Um grupo recebeu como tratamento 12 sessões de neurofeedback – que consiste em exercitar diretamente das funções cerebrais – e o outro 12 sessões com um treino placebo.

Para perceber exatamente o que acontecia submeteram os participantes do estudo a eletroencefalogramas, antes e depois de cada sessão. O estudo revelou que tanto o tratamento real como o placebo são eficazes no que diz respeito à regulação do sono. Ou seja, as melhorias observadas não derivaram de um tratamento em específico mas sim de outros fatores como acreditar no tratamento ou sentir confiança nos terapeutas. Será a Ciência a dizer que está na hora de começar a olhar para o efeito placebo com outros olhos, talvez como uma verdadeira terapêutica?

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