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George Orwell: O grande irmão que viu mais além

4 Maio, 2017

Quase sete décadas depois da sua publicação original, o romance 1984 de George Orwell voltou este ano aos tops de vendas. Mas quem foi este homem que imaginou uma sociedade dominada pelo Big Brother?


Um homem de ideais no século XX

Cyril Connolly dizia em tom de brincadeira que “Orwell era incapaz de se assoar sem moralizar sobre as condições de trabalho da indústria de lenços.” E de facto George Orwell era assim, um homem de convicções fortes a atravessar o turbulento século XX. Profundamente marcado pelas suas próprias experiências – a pobreza nas cidades europeias, o regime colonialista britânico e a passagem pela guerra civil espanhola -, delas retiraria a inspiração para muitas das suas obras.

Além disso, aquilo por que passou ajudou a moldar também o seu pensamento político e consciência crítica, o que fez de Orwell um defensor veemente do socialismo democrático: “Cada linha de trabalho sério que escrevi desde 1936 foi escrita, direta ou indiretamente, contra o totalitarismo e a favor de um socialismo democrático”, dizia.

Da Polícia Imperial ao sonho de escrever

Na realidade, George Orwell é o pseudónimo de Eric Arthur Blair, nascido em 25 de junho de 1903 em Motihari, Bengala, antiga colónia britânica da Índia. Poderia pensar-se que o contacto direto com o colonialismo britânico começasse logo de tenra idade, mas não. Com apenas um ano, o escritor mudou-se com a mãe para Inglaterra onde viria a residir até finalizar o seu percurso académico. Em 1917, o seu desempenho escolar, mas sobretudo a sua escrita, valeram-lhe uma bolsa para Eton, um dos mais antigos e prestigiados colégios britânicos. Aqui o jovem Blair teve como professor de Francês um dos mais consagrados autores de ficção científica do século XX: Aldous Huxley.

O primeiro contacto real com o colonialismo britânico deu-se em 1922 quando chegou à Birmânia (atual Myanmar) para se juntar à Polícia Imperial Indiana. Das memórias desses anos nasce o livro Dias Birmaneses, editado em 1934.
Após uma estadia em Inglaterra para se recuperar de um surto de dengue, Orwell reavalia a sua vida e toma a corajosa decisão de demitir-se da polícia para perseguir o sonho de ser escritor. Para isso ruma a Paris, contudo a vida na cidade luz não lhe sorriu e o reconhecimento enquanto escritor não chegou.

Por esta altura, o escritor passou por várias dificuldades para sobreviver e acredita-se que as dores no peito, os problemas respiratórios e a tuberculose que se revelaria fatal vêm dessa época. Desses anos mais difíceis surge o seu primeiro livro Na Penúria em Paris e em Londres, publicado em 1933, já então sob o pseudónimo de George Orwell.

Uma vida marcada pela guerra

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Como muitos outros intelectuais da sua época, Orwell viajou para Espanha no final de 1936 para combater na guerra civil espanhola, para integrar, claro, a fação republicana. A sua escolha recaiu sobre o POUM (Partido Operário de Unificação Marxista) uma milícia de tendência trotskista, anti estalinista, onde foi soldado de infantaria. Orwell percebia que por terras de D. Quixote se travava uma luta que em muito excedia as fronteiras do país. Travava-se um combate ideológico entre os valores democráticos e o pensamento nacionalista e totalitário, cujo desfecho teria implicações para toda a Europa.

O escritor bateu-se pelos ideais democráticos opondo-se não só aos nacionalistas de Franco, mas também ao servilismo que via no Partido Comunista Espanhol em relação à União Soviética. Em Maio de 1937, foi atingido no pescoço por uma bala que saiu pelas costas danificando-lhe as cordas vocais e deixando-o para sempre com uma voz ligeiramente afeminada. Logo no mês seguinte foi obrigado a fugir das perseguições do Partido Comunista Espanhol.

Desiludido com o que considerava uma traição aos valores do socialismo democrático por parte dos comunistas, Orwell desenvolveu um arraigado sentimento anti-estalinista. A denúncia através de uma crítica mordaz ao regime totalitário comunista instituído na URSS foi, a partir de então, o fio condutor das suas obras. Homenagem à Catalunha é a sua homenagem aos que lutaram por esses ideais democráticos.

A Quinta dos Animais e o merecido reconhecimento

Os anos da Segunda Guerra Mundial foram uma nova prova de fogo para Orwell, sobretudo na sua vida pessoal. Em 1945 a sua primeira esposa, Eileen O’Shaughnessy, morre numa operação de rotina. Orwell vê-se assim viúvo e com um filho para criar, um rapaz que o casal havia adotado no ano anterior já que Orwell era estéril.

Nem a chegada do tão desejado reconhecimento enquanto autor e da estabilidade económica com a edição de A Quinta dos Animais no mesmo ano puderam diminuir a mágoa. Esta obra é uma das mais sublimes parábolas satirizantes do totalitarismo, na qual Orwell faz uma clara alusão crítica ao estalinismo. “Todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais que os outros” é a expressão mais conhecida que saiu deste livro.

1984, a mais famosa distopia do mundo

Não é por acaso que 1984 influenciou – e continua a influenciar – o mundo. Considerada a obra-prima de Orwell, é um marco da literatura universal. Winston Smith é o personagem principal desta trama e o homem que questiona o Grande Irmão, esse ser que controla e manipula a sociedade até à exaustão.

Mas como é que uma obra de 1949 volta hoje para os tops de vendas? Muito provavelmente porque se vão encontrando assustadoras semelhanças entre os dias de correm e a sociedade descrita em 1984.

A obra que esteve para se chamar O Último Homem na Europa, não teve um nascimento fácil. Para a escrever, Orwell teve que se isolar na ilha escocesa de Jura, entre 1946 e 1948. O homem que queria ser escritor e viver das suas obras, não estava a ser capaz de lidar com o sucesso e todas as vicissitudes da vida. Instalado numa casa antiga durante um dos invernos mais frios do século (1946-1947) a sua saúde foi-se debilitando e as dificuldades para terminar a obra que o seu editor lhe pedia pareciam intransponíveis.

A última luta

Orwell já havia afirmado anteriormente, no ensaio Porque Escrevo, que “Escrever um livro é uma luta horrível e extenuante, como uma longa crise de uma doença dolorosa. Ninguém empreenderia tal coisa se não fosse conduzido por um demónio ao qual não se pode resistir ou entender.”

A obra ficou pronta, mas 1984 revelar-se-ia a última luta do escritor com esse demónio. A 21 de janeiro de 1950, decorridos apenas seis meses da publicação do livro, George Orwell morreu vítima de tuberculose. A sua vida pode ter sido curta mas o seu legado pode muito bem ser eterno. Em apenas 46 anos de vida, Orwell conseguiu marcar a literatura inglesa e o imaginário mundial, criando novas palavras, expressões e todo um novo mundo! Se Winston Churchill afirmou tê-lo lido duas vezes, todos o deveriam ler pelo menos uma vez na vida.

“1984” foi adaptado para rádio, televisão e cinema ao longo dos anos.

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