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Almada Negreiros: regresso ao moderno

29 Março, 2017

Almada Negreiros viveu como um homem de múltiplas artes e reinventou a ideia de ser moderno. Passados 25 anos da última exposição dedicada ao artista, a Gulbenkian apresenta agora uma antologia de 400 das suas obras.


José de Almada Negreiros: uma maneira de ser moderno

Assim se chama a nova exposição de Almada Negreiros. A Fundação Gulbenkian dedicou duas das suas salas de exposições temporárias a 400 trabalhos – alguns inéditos – do artista que nos disse adeus a 15 de junho de 1970. E como o tempo voa. Sim, passaram 25 anos desde a última grande exposição dedicada a Almada Negreiros.

E o que pode encontrar por lá? Obras do início da sua carreira – marcada pela presença do desenho humorístico -, as primeiras encomendas, o famoso retrato de 2×2 metros pintado para o restaurante Irmãos Unidos ou óleos dos anos de 1950 que demonstram o seu claro interesse pelas figuras geométricas. Prova disso é o painel Começar (1968, na foto), o seu expoente máximo. Além disso, a exposição vem mostrar a modernidade de Almada como algo absolutamente plural, complexo, híbrido e contraditório.

Como se isto não bastasse, pode contar ainda com um programa variado que contempla mesas-redondas, visitas guiadas às gares marítimas de Alcântara e da Rocha do Conde de Óbidos, onde Almada deixou painéis a fresco; um ciclo na cinemateca com filmes a ele ligados – sabe-se que o cinema o fascinava, sobretudo Charlie Chaplin! – entre muitas outras atividades. E o melhor é que tem até 5 de junho para matar saudades do artista e do seu trabalho!

Um homem de múltiplas artes

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Há quem diga que há pessoas que nascem com o dom das artes, que são artistas por natureza. Podemos romantizar assim a história de vida de Almada Negreiros: sabe-se que tinha uma apetência natural para desenhar, isto é, era um autodidata e nunca frequentou Belas Artes ou qualquer escola de ensino artístico. E embora tenha nascido em São Tome e Príncipe, em 1893, descobriu o seu dom por terras lisboetas.

O artista expôs pela primeira vez a solo aos 20 anos na Escola Internacional e o seu percurso artístico acabou por centrar-se e passar quase exclusivamente por Portugal. Embora, como muitos outros artistas, se tenha deslocado a Paris em 1919, a sua passagem foi curta e ficou marcada pela precariedade e pelo facto de não se ter encaixado no meio artístico parisiense. Já em Madrid viveu durante cinco anos mas decide voltar, sem nunca mais olhar para trás. Estávamos em 1932. E durante a sua jornada encontrou o amor nos braços de Sarah Afonso, com quem casou e teve dois filhos.

Ao longo da sua vida artística, Almada Negreiros não teve uma, mas várias paixões. Artista completo como era, procurou expressar-se através do desenho, da pintura, do ensaio, do romance, da poesia, da dramaturgia e até do bailado! A passagem por Lisboa dos revolucionários Ballets Russes de Sergei Diaghilev influenciou-o a tal ponto que chegou a encenar, coreografar e dançar!

Não desligava a arte da política

Almada Negreiros distinguiu-se em muitas artes, mas também na escrita interventiva. Teve um papel importante na linha da frente da primeira vanguarda modernista e chegou mesmo a colaborar com a revista Orpheu. Foi neste título fundamental do século XX português que escreveu e apresentou os seus manifestos. Além disso, assinou publicações incontornáveis como o Manifesto Anti-Dantas, K4 – O Quadrado Azul e Portugal Futurista.

Durante o Estado Novo, Almada Negreiros participou em exposições promovidas pelo Secretariado de Propaganda Nacional de António Ferro e aceitou várias encomendas para grandes obras públicas como gares marítimas, liceus e universidades. Mas nem por isso se tornou um artista alinhado com o regime, defende a curadora da exposição. Mariana Pinto dos Santos recorda que Almada escreveu vários textos a contestar abertamente a política de Ferro, afirmando a sua liberdade enquanto artista!

Quando ganha o prémio Columbano em 1941 passa a poder participar nas exposições oficiais do regime e a aceitar encomendar públicas, o que acabou por se revelar uma dupla vantagem. Financeira, por um lado, já que Almada não nasceu num seio familiar abastado – era filho de um tenente de cavalaria e de uma mestiça – e o seu rendimento vinha só do seu trabalho. Por outro lado, permitia-lhe dar mais visibilidade e reconhecimento ao seu trabalho interventivo.

A exposição na Fundação Gulbenkian passa em revista o percurso singular deste artista que deu todo um outro significado ao conceito de modernidade e que marcou todo o século XX português.

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