Saúde

Vacinas: uma luta de vírus contra vírus

14 Fevereiro, 2017

Passaram mais de 200 anos desde que foi administrada a primeira vacina. Mas será que hoje já sabemos ao certo como funcionam as vacinas no nosso organismo?


Como é que o nosso corpo se defende das infeções?

O organismo humano possui diferentes mecanismos de defesa contra as infeções. No entanto, há um que se destaca pela sua importância: falamos da produção de anticorpos pelos glóbulos brancos. Mas quando é que estes pequenos soldados são chamados a entrar ao serviço da nossa saúde? Ora, quando um determinado vírus ou bactéria tenta atacar o nosso sistema imunitário colocando-nos em perigo.

E embora nos possam ter apanhado desprevenidos à primeira, numa segunda tentativa de ataque, o nosso organismo já está preparado para investir. Isto porque o nosso sistema imunitário decora o modo como controlou a infeção anterior e as chamadas “células de memória”, um tipo de glóbulos brancos, desencadeiam uma resposta mais rápida e eficaz caso haja um contacto com o mesmo tipo de micro-organismo. Ou seja, começam logo a produzir os anticorpos específicos, explica a Direção-Geral de Saúde.

Como atuam as vacinas no organismo?

Em parceria com os glóbulos brancos e o sistema imunitário nesta batalha pela defesa do nosso bem-estar estão as vacinas. Como? Através de uma injeção, são administrados no nosso corpo componentes importantes dos vírus e bactérias – antigénios – que provocam uma determinada doença. E, curiosamente, isto confere-nos um escudo de imunidade!

Tal acontece porque as vacinas vão operar numa dinâmica de professor-aluno: ensinam as células responsáveis pelas defesas naturais do nosso organismo a assumir os elementos contidos nas vacinas como estranhos, a defenderem-se e a estimular a formação imediata dos anticorpos. Isto evita que a pessoa venha a desenvolver a doença quando entra em contacto com o micro-organismo numa fase posterior.

E não se admire caso após a administração de uma vacina sinta alguns efeitos secundários ligeiros como, por exemplo, febre, dor de cabeça ou vermelhidão no local da injeção. Todos estes são sintomas normais e correspondem ao processo de desenvolvimento da imunidade. Após umas semanas estará totalmente protegido!

As vacinas são um medicamento?

Ler Mais

Em teoria as vacinas são consideradas um medicamento, mas existem muitos pontos que as separam dos fármacos tradicionais. Para começar, as vacinas têm uma ação preventiva, um benefício tanto individual como coletivo e são administradas em pessoas saudáveis. Já os medicamentos têm uma ação terapêutica e vão atuar exclusivamente sobre um indivíduo doente que, normalmente, começará a melhorar mal se dê início ao tratamento.

As vacinas do Programa Nacional de Vacinação

A necessidade de acompanhar a Europa no panorama epidemiológico levou ao arranque do Programa Nacional de Vacinação em Portugal (PNV) no ano de 1965. E atualmente integra 12 vacinas: falamos nomeadamente da hepatite B, infeções por Haemophilus influenzae b, difteria, tétano, tosse convulsa, poliomielite, pneumonia, meningite, sarampo, parotidite epidémica, rubéola e infeções por Vírus do Papiloma Humano (HPV).

Neste sentido, a Direção Geral de Saúde elaborou um calendário de vacinação para que saiba quais as vacinas que tem que tomar ao longo da sua vida – e quando!

BCG fora do programa

O Programa Nacional de Vacinação é revisto e atualizado regularmente pela Direção-Geral de Saúde o que pode conduzir à entrada e saída de vacinas. A proposta parte da Comissão Técnica de Vacinação que tem em conta as vacinas disponíveis, a frequência e distribuição das doenças em Portugal, a evolução social e os serviços de saúde.

O que pode explicar, em parte, o porquê de a vacina contra a tuberculose – BCG – deixar de integrar o programa em 2017: a decisão da Direção-Geral de Saúde vem na sequência da diminuição de novos casos da doença em Portugal e, por isso, a vacina contra a BCG vai passar a ser administrada apenas aos designados grupos de risco e não a todos os recém-nascidos, como era habitual.

A picada da primeira vacina sentiu-se há mais de 200 anos

No início do século XVIII, a varíola matava sem qualquer preconceito um elevado número de crianças. E as que não morriam ficavam muitas vezes cegas ou com cicatrizes para a vida. Por acaso do destino, foi precisamente por essa altura que o médico inglês Edward Jenner reparou que as mulheres que ordenhavam vacas – e que tinham frequentemente lesões nas mãos semelhantes às pústulas da varíola – estavam imunes aos surtos.

Assim sendo, Jenner não tardou em pôr em prática a sua teoria: inoculou um rapazinho de oito anos chamado James Phipps com o líquido de uma pústula da mão de uma ordenhadora, em 1796, e passado algum tempo vacinou-o com o vírus da varíola. Resultado? O menino não adoeceu! O trabalho do considerado pai da vacinação abriu caminho ao controlo de uma doença infeciosa através de uma vacina pela primeira vez.

Mais tarde seguir-se-ia Louis Pasteur com a vacina contra a raiva. Já no século XX foram desenvolvidas vacinas contra doenças tão terríveis como a tuberculose, a difteria, o tétano e a febre-amarela. As vacinas para travar a poliomielite, o sarampo, a papeira e a rubéola chegaram após a 2ª Guerra Mundial e atualmente existem mais de 50 vacinas em todo o mundo. No entanto a ciência ainda não tem resposta para aquele que é o grande desafio de sempre: encontrar a vacina contra a SIDA.

Ler Menos