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Roald Amundsen: O último viking que venceu a corrida ao Pólo Sul

5 Janeiro, 2017

Roald Amundsen venceu a corrida ao Pólo Sul e tornou-se o primeiro a pisar o ponto mais meridional da Terra, em 1911. Conheça a história fascinante do “último viking”.


Aprender a viver como um esquimó

“Setembro 12, terça-feira. Pouca visibilidade. Brisa desagradável a partir de S. devido aos menos 52 graus centígrados. Os cães estão claramente afetados pelo frio. Os homens, rígidos nas suas roupas geladas, estão mais ou menos satisfeitos depois de terem passado a noite na geada… Poucas probabilidades de clima ameno”.

roald_amundsenEsta entrada pertence a uma das passagens do diário de viagem de Roald Amundsen, conhecido mundialmente como o homem a dirigir a primeira expedição ao ponto mais meridional da Terra – o Pólo Sul -, em 1911. Nada para o qual já não estivesse preparado: seis anos antes daria que falar ao cruzar a lendária passagem a Noroeste do Ártico, do Atlântico ao Pacífico. “Está feito. O meu sonho de infância realizou-se”, escreveu a 26 de Agosto de 1905.

Ao viver e trabalhar no Ártico durante três meses, Roald Amundsen conseguiu cartografar várias ilhas da região – esta expedição valeu-lhe um prémio geográfico -, recalcular a posição do Pólo Norte Magnético e, sobretudo, aprender sobretudo, com o povo de esquimós Netsilik a sobreviver ao rigoroso inverno do Ártico. Adotou a sua forma de vestir, de viajar, de comer, aprendeu a usar cães de trenó e até experimentou dormir em iglôs!

No entanto era na outra ponta do mundo que estava o grande prémio a conquistar. Em jogo estava o prestígio de ser o primeiro a pisar o Pólo Sul. Para isso, o explorador recorreu a uma estratégia fora do comum: mudou de trajetória e manteve em segredo todos os seus planos. Tudo porque Robert Peary lhe tinha passado a perna e reclamado o Pólo Norte antes. Para esta aventura ousada, o também apelidado de “último viking” precisou de uma equipa de 19 homens, vários skis, 100 cães, trenós e 18 meses de muita preparação.

A falsa partida

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Liderar a primeira expedição a chegar ao Pólo Sul era importante para Amundsen, não só porque representava um objetivo há muito desejado, mas porque consegui-lo garantiria o futuro de próximas expedições.

Mas é claro que não foi fácil. Uma expedição britânica liderada pelo Capitão Robert Scott rumava também a Sul e o norueguês Amundsen não pensou duas vezes: deu início à viagem mesmo antes de chegar a Primavera Polar e as melhores condições climáticas. Esta decisão custar-lhe-ia na altura a perda de vários cães e provocaria nos pés dos seus homens queimaduras que chegariam a levar um mês a curar.

Quatro dias bastariam para perceber que era um erro arriscar tanto e a equipa voltou à base, em Framheim. Esta falsa partida a Setembro de 1911 serviria para relembrar a Amundsen que apesar de ser um homem de grandes ambições, cheio dos mesmos sonhos que motivavam outros a arriscar a própria vida nestas expedições, era também um profissional que primava pelo método e pela postura cautelosa. “Para ganhar temos de mover bem as peças do jogo. Basta um passo em falso para tudo ficar perdido”, pode ler-se no seu diário de viagem.

A conquista do Pólo Sul

polo_sulDepois deste revés, Amundsen arranca novamente a 20 de outubro e acaba por alcançar a meta a 14 de dezembro, com mais quatro homens do seu lado. Ao contrário de outros, Amundsen soube quando voltar para trás. É que a corrida ao Pólo Sul ficará para sempre marcada pela morte trágica da equipa rival.

O Capitão Scott e os seus cinco homens chegaram efetivamente ao Pólo Sul, cinco semanas depois de Roald Amundsen, mas o explorador e os seus cinco homens não resistiriam à viagem de regresso e acabaram por morrer devido à combinação fatal de exaustão, fome e frio extremo.

Ártico: tudo acabou onde começou

De onde vem esta paixão pelas expedições e por desbravar caminhos nunca antes percorridos? No caso de Roald Amundsen, estava-lhe no sangue: o norueguês nasceu em 1872 no seio de uma família de proprietários de navios e de grandes capitães. Além disso, desde criança que vivia fascinado com as histórias que lia sobre as aventuras falhadas do explorador inglês John Franklin para encontrar a Passagem a Noroeste do Árctico.

Mas quando é que Amundsen decidiu efetivamente que queria ser um explorador polar? Estávamos em 1889 e o norueguês Fridtjof Nansen retornaria vitorioso da sua travessia pela Gronelândia, dando-lhe ainda mais alento. No entanto, como qualquer outra mãe, Gustava Sahlquis, tentou sempre dissuadi-lo para que seguisse a carreira de médico. Assim, Roald Amundsen fez o gosto à mãe e chegou mesmo a estudar medicina, até à sua morte. Foi neste preciso momento que o norueguês decidiu abandonar a universidade e dar continuidade à sua formação de marinheiro.

Não tardou muito até ir aos Estados Unidos à procura de patrocínios para os seus projetos. Aos 25 anos viajaria a bordo do Belgica como segundo oficial e parte para uma expedição científica à Antártida: apesar de terem ficado encalhados num glaciar, Amundsen sobreviveu para contar a história e aprendeu muito sobre o ambiente que o rodeava – conhecimentos que aplicaria mais tarde ao aperfeiçoamento do equipamento polar.

Tinha 38 anos quando montou a sua base na Antártida, em plena Baía das Baleias, para conquistar o Pólo Sul. Seguiu-se outro importante feito: foi o primeiro explorador a sobrevoar o Pólo Norte e fê-lo num dirigível.

Por ironia do destino, o explorador acabaria por perder a vida onde alcançou a sua primeira grande conquista: o Ártico. Com apenas 55 anos, Amundsen sofreu um acidente com um hidroavião – uma paixão tardia – e acabou por despenhar-se no oceano Ártico. O corpo nunca foi encontrado.

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