Saúde

Resistência aos antibióticos: uma ameaça real

13 Dezembro, 2016

O mau uso dos antibióticos está a tornar-se um problema sério, a tal ponto de poder aumentar a taxa de mortalidade. Porquê?


Uma fatura de 10 milhões de mortes por ano

Foi Alexander Fleming que esbarrou literalmente no primeiro antibiótico. Estávamos em 1928 quando o médico notou que algo de estranho se passava com um bolor presente numa pilha de placas de petri em que tinha estado a trabalhar: o fungo em causa tinha criado à volta de si mesmo uma espécie de círculo livre de bactérias. Fleming analisou-o e descobriu a penicilina, o que acabou por revolucionar o mundo. A inegável eficácia dos antibióticos durante a Segunda Guerra Mundial disparou a sua produção para as 650 mil milhões de unidades por mês e desde então foram salvas milhares e milhares de vidas.

A eficácia dos antibióticos significou uma grande revolução para a medicina, mas há um senão. O mau uso ou utilização excessiva deste tipo de medicamento criou um problema que está a preocupar a comunidade científica e que pode, nas próximas três décadas, significar um grande retrocesso na medicina moderna. A resistência aos antibióticos passou de teoria a ameaça real. Segundo o estudo Review on Antimicrobial Resistance, levado a cabo no Reino Unido, este revés poderá ser responsável pela morte de 10 milhões de pessoas por ano. Se o cenário se confirmar, a resistência aos antibióticos matará mais depressa que o cancro.

Pequenas infeções e cirurgias simples podem voltar a matar

Picture of sick woman with cough and throat infection

O que acontece se os antibióticos deixarem de funcionar de forma generalizada? Em última análise, pequenas infeções ou mesmo tratamentos e cirurgias simples poderão voltar a matar, o que poria em causa grandes conquistas ao nível da saúde e atiraria a medicina atual para situações que associamos a outras eras. Mas como chegámos a este ponto?

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A culpa é das bactérias multirresistentes, um tipo específico de bactéria que se foi desenvolvendo às custas da crescente exposição do nosso organismo aos antibióticos. Durante o processo de multiplicação de uma bactéria podem ocorrer falhas que lhe permitem, por exemplo, escapar ao efeito dos antibióticos. Com esta vantagem, as bactérias multirresistentes crescem e multiplicam-se, ao contrário das bactérias “normais”, que acabam por morrer na presença de antibióticos. Em pouco tempo, as multirresistentes passam a dominar no organismo, com tudo o que isso implica.

O que estamos a fazer mal?

Parte deste problema tem origem no uso excessivo e desadequado de antibióticos e muitos de nós têm culpa no cartório. Quem não toma o antibiótico durante o período indicado pelo médico, quem o prescreve mal, quem dispensa o medicamento sem receita – o que é proibido em Portugal – e até quem põe no lixo normal os comprimidos que sobram. E como se não bastasse abusarmos dos antibióticos, ainda estamos a ingerir bactérias multirresistentes através da alimentação.

Estima-se que 50% de toda a produção de antibióticos na Europa se destine à pecuária. Dão-se antibióticos a porcos, frangos e vacas, para que cresçam sem doenças e, claro, todos eles fazem parte da nossa dieta diária. Este uso massivo de antibióticos na criação de animais está também a comprometer a saúde pública: a carne que ingerimos é uma fonte de transmissão de bactérias multirresistentes.

A Organização Mundial de Saúde não tem dúvidas. Se não se colocar um travão ao uso excessivo de antibióticos – quer em humanos, quer nos animais – com o tempo não haverá antibióticos à altura para combater as infeções. No pior cenário, voltaremos à época em que não se conseguirão tratar doenças como a tuberculose ou outras infeções associadas ao nascimento de prematuros, à quimioterapia, à imunoterapia ou até mesmo a complicações derivadas das cirurgias.

 E se a resposta ao problema estiver em nós?

Ou melhor: nos nossos intestinos! Vários estudos, como os da Nature Communications, indicam que o microbioma intestinal tem uma influência positiva na digestão, na flora intestinal e precisamente no combate a invasores indesejados como as bactérias. No entanto, o desajustado consumo de antibióticos está a impedir esta ação positiva. Um estudo publicado na mBio revela que tomar antibióticos durante uma semana afeta gravemente os microbiomas intestinais, pelo menos durante um ano. E como este fármaco não aprendeu a distinguir as boas das más bactérias, todas têm o mesmo fim.

Mas como podemos parar de autodestruir a nossa própria imunidade? A solução pode passar pela adoção de uma alimentação livre de antibióticos, de leis mais apertadas sobre o uso deste tipo de fármaco ou do desenvolvimento de novas terapêuticas e medicamentos. Um compromisso que só resulta se o mundo unir forças e encontrar alternativas que sejam mais sustentáveis a longo prazo.

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