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Nobel da Medicina 2016: estaremos mais perto da cura para o Alzheimer?

12 Dezembro, 2016

A investigação sobre a autofagia valeu a Yoshinori Ohsumi o Nobel da Medicina deste ano e pode representar um passo decisivo no tratamento do Alzheimer. Saiba porquê.


Autofagia: Um segredo bem guardado das células

As células e a sua capacidade de sobrevivência não deixam de nos surpreender. Na década de 60 os cientistas descobriram uma coisa fantástica: as células têm um mecanismo de auto-regeneração ou de auto-limpeza, o qual ganhou o nome de “Autofagia”.

Este mecanismo é muito importante, porque se a célula não é capaz de se limpar, haverá uma acumulação de resíduos e se este processo ficar completamente desregulado, pode levar a muitas patologias. É o caso de doenças neurodegenerativas como o Alzheimer ou o Parkinson, doenças infecciosas e diferentes tipos de cancro.

Mas outras patologias como a obesidade ou a diabetes, algumas doenças cardiovasculares ou intestinais, ou inclusive a artrose, também podem estar ligadas à autofagia.

Yoshinori Ohsumi: o decifrador da Autofagia

yoshinori_osumiNo entanto só no século XXI, ou seja 50 anos depois das primeiras descobertas, é que este mecanismo foi devidamente decifrado. E é aqui que entra Yoshinori Ohsumi com o seu extraordinário contributo para a decifração da forma de funcionamento da autofagia. Sabia-se ainda muito pouco sobre este processo celular quando em 1988 Ohsumi começa a realizar uma série de experiências através das quais conseguiu identificar os genes essenciais e os mecanismos subjacentes à autofagia. Como? Utilizou um ingrediente insuspeito: fermento de padeiro. O próximo passo foi provar que as células humanas utilizam um sistema sofisticado semelhante. E assim foi.

Um passo importante no tratamento do Alzheimer 

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O que é que a descoberta de Ohsumi representa para a saúde, afinal? Por conta destas descobertas, tenta-se hoje compreender porque é que a autofagia diminui com a idade. Acredita-se que é possível desenvolver formas de ativar a autofagia para manter as células em bom estado por mais tempo e assim poder-se viver melhor e mais tempo.

Na maioria das patologias, a autofagia deve ser estimulada, como nas doenças neurodegenerativas (Alzheimer e Parkinson), para eliminar os aglomerados de proteínas que se acumulam nas células doentes.

Também o mesmo princípio pode ser aplicado ao tratamento da artrose, dos diabetes, da aterosclerose ou das doenças infecciosas, quando se trata de estimular a resposta imunológica.

Trabalhos com animais revelaram que os estimuladores da autofagia podiam melhorar a resposta anticancerígena, por meio da resposta imunológica. Por outro lado, alguns pesquisadores trabalharam para inibir a autofagia e assim reduzir o stress celular ligado à quimioterapia.

Por outro lado a estimulação da autofagia celular pode ser uma resposta à ineficácia dos antibióticos perante a proliferação das chamadas superbactérias, aquelas que resistem aos antibióticos.

Próximos passos? O investigador acredita que o melhor ainda está para vir.

Quem é Yoshinori Ohsumi?

Aos 71 anos de idade, o professor do Instituto de Tecnologia de Tóquio é a prova viva de que são os desafios que estimulam a criação e os grandes avanços. Criado num Japão ainda a recuperar da devastação da Segunda Guerra Mundial, Ohsumi teve desde cedo um percurso de vida marcado por dificuldades.

Nada que o tenha impedido de seguir uma vida académica, tal e qual como o seu pai: o investigador conta que gostava de química mas que foi na universidade em Tóquio que conheceu aquela que viria a ser a sua grande paixão: a biologia molecular.

E embora tenha terminado o seu doutoramento no Japão, em 1974, não pensou duas vezes em trocar a sua cidade natal por Nova Iorque, onde poderia abrir asas e ter mais oportunidades na investigação independente. Chegado à Universidade Rockfeller, conheceu Mike Jazwinski e é neste preciso instante que a sua carreira dá um salto: teve o seu primeiro contacto com as células de levedura, que têm marcado o seu trabalho até aos dias de hoje.

Passados três anos voltaria à base e aí reuniria a sua própria equipa de investigação. Estávamos em 1988 e bastariam apenas mais quatro anos até dar de caras com a autofagia. Num tom leve, o investigador Ohsumi revela ao The Journal of Cell Biology que talvez tenha sido bem-sucedido porque quis ser diferente e estudar matérias que não fossem tão interessantes ou populares entre os outros cientistas.

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