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Calouste Gulbenkian: quem foi o homem por detrás da Fundação?

27 Outubro, 2016

Quem o conheceu de perto afirma que a vontade de ser o melhor lhe corria nas veias. Mas quem era o misterioso Gulbenkian, afinal? No ano em que a sua Fundação faz 60 anos revelamos-lhe o homem por detrás da instituição.


O senhor 5%

A reconhecida ambição de Calouste Gulbenkian pouco tinha a ver com dinheiro. Aliás, o que este arménio mais queria era deixar a sua marca por onde passasse  e fez por isso: quando todas as potências europeias tinham os olhos postos no Império Otomano, Gulbenkian decide fundar o Banco Nacional da Turquia para explorar todo o potencial das reservas petrolíferas presentes no riquíssimo solo iraquiano. Tinha então 39 anos e uma visão muito à frente do seu tempo.

O próximo passo passava por formar parcerias. Estávamos precisamente no ano de 1912 quando cria a Turkish Petroleum Company e decide abrir mão da sua quota de 40% na concessão de todas as reservas de petróleo a favor da Royal Dutch Shell. Quando a Anglo-Persian Oil Company entra na corrida em 1914, Gulbenkian não pestanejou em reduzir a sua participação de 15% para 5%. Uma decisão estratégica que serviu o grande propósito do Senhor 5%, como ficou conhecido: rodear-se das pessoas certas, mesmo que isso significasse abdicar de uma percentagem da sua quota.

Uns meses mais tarde rebentaria a Primeira Guerra Mundial e o Império Otomano acabaria por se dissolver por completo. Nada que desmotivasse Gulbenkian, que só descansou quando trouxe para o seu lado os franceses e os americanos, em 1928. A razão era simples: foi a única forma de garantir a exploração organizada do petróleo e a sua participação de 5% entre as maiores do mundo. Era como o próprio diria: “Nada escapa à minha atenção”.

Nascido para os negócios

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Calouste Gulbenkian rodeado pelos irmãos

De onde vem esta sede de marcar a diferença nos negócios? Para o explicar temos de recuar a Istambul e a 1869, ano em que nasceu Calouste Gulbenkian. Sabe-se que este financeiro foi criado no seio de uma família arménia bastante abastada que subiu na vida à conta do comércio. Assim sendo, Calouste aprendeu bem cedo como é ser um homem de negócios: o seu pai e o seu tio tinham fundado juntos a S & S Gulbenkian, que para além de ser uma empresa de exportação e importação de tapetes, lã e querosene, funcionava também como banco.

Num piscar de olhos, a S & S Gulbenkian passou a integrar uma rede de sociedades comerciais de base familiar com sede em Londres, Marselha, Bulgária, entre outras cidades do Império Otomano. E foi imbuído da forma de ser do seu pai que Calouste Gulbenkian decide seguir as suas pisadas e embarcar com apenas 19 anos numa viagem a Baku que iria mudar a sua vida para sempre: aprende mais sobre o petróleo e o seu interesse é tal que dita a escrita de um livro – La Transcaucasie et la Péninsule d’Apchéron: Souvenirs de Voyage – e o seu futuro nesta área.

Ser professor de Física era um sonho que ficaria no passado. Apesar de ser uma paixão de juventude que o seu pai via como um autêntico disparate, ainda assim Gulbenkian ingressa na Escola do King’s College, em Londres, para estudar Ciências Aplicadas e em 1887 forma-se oficialmente em Engenharia. Cinco anos depois, Gulbenkian deu mais um passo, mas desta vez por amor: casou-se com Nevarte Essayan com quem teve dois filhos, Nubar e Rita.

Um “homem do petróleo” apaixonado pelas artes

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Ao longo de toda a sua vida, este profundo conhecedor do Corporate Finance e ávido “homem do petróleo” investiu muito e bem. E, claro, a sua riqueza deu-lhe asas para explorar uma grande paixão: a arte. Ao sabor das viagens e do seu gosto pessoal, começa a juntar uma coleção muito eclética com peças que remontam desde a Antiguidade até ao século XX. As suas “filhas”, como carinhosamente as tratava, além de serem oriundas do Antigo Egipto, da Antiga Grécia, do Japão, da Europa, da Pérsia, da Babilónia ou da Arménia, perpetuam os nomes de reconhecidos artistas como Bouts, Van der Weyden, Lochner, Rubens, Van Dyck, Hals, Rembrandt, Guardi, Gainsborough, Romney, Lawrence, Degas e Monet.

Entretanto a vida acontece e Calouste Gulbenkian, como tantos outros, teria de refugiar-se em Portugal em 1942, aquando da Segunda Guerra Mundial. A passagem do colecionador pelo nosso país pode ter-se tornado definitiva por um acaso do destino – sabe-se que o milionário Gulbenkian sofreu de uma doença repentina – mas o que é certo é que acabaria por constituir um marco na nossa cultura. Foi em testamento que nos deixou a Fundação que tem o seu nome. Porquê? Como forma de agradecimento e porque “nunca havia sentido em mais lado nenhum” uma hospitalidade como a que o rodeou em Lisboa, uma cidade tranquila numa Europa devastada pela guerra.

Mas abrir portas não seria assim tão fácil. Levou 14 anos após a sua morte, em 1955, até que o seu sonho de ver a toda a sua coleção debaixo do mesmo teto se tornasse realidade: as árduas negociações com os Governos Português e Francês para viabilizar a saída da coleção de França e definir a base legal da Fundação dificultaram muito o processo, mas não o travaram.

Num estalar de dedos passaram-se 60 anos e a Fundação Calouste Gulbenkian é hoje, muito mais do que um museu, uma das referências da cultura portuguesa, cuja principal missão é a de promover as artes, a ciência e o conhecimento.

Atualmente a gestão da Fundação permanece no seio da família Gulbenkian, pela mão do bisneto do fundador. Já depois dos 40 anos de idade, Martin Essayan decidiu abraçar a administração e honrar o legado do senhor “confere, confere, confere”, um compromisso que ele considera, acima de tudo, “muito emocional”.

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