Saúde

O que acontecerá quando todos vivermos até aos 100 anos?

7 Outubro, 2016

Há 450 mil centenários espalhados por todo o mundo e só em Portugal vivem 4 mil. Mas qual é exatamente o segredo da longevidade? E estaremos preparados para todas as mudanças que aí vêm?


O segredo está nos genes!

Sim, chegar aos 100 anos – ou até mais – esconde por detrás uma questão genética ou, se quisermos, hereditária: se houver casos de irmãos ou familiares próximos que tenham atingido essa idade aumenta a probabilidade de isso também acontecer nas gerações futuras. Mas as novidades não ficam por aqui. Durante uma investigação, os especialistas do National Institute on Aging conseguiram também apurar que além de as pessoas estarem a viver mais anos, também estão a conseguir viver melhor! Aliás, a grande maioria não apresentava qualquer indício das principais doenças associadas ao envelhecimento como o cancro, problemas cardíacos ou inclusive diabetes.

Como é que isto é possível? O investigador e diretor do Institute for Aging Research em Nova Iorque Nir Barzilai, ao debruçar-se também sobre a influência hereditária e biológica no aumento considerável da esperança média de vida, foi mais longe e conseguiu descobrir que os centenários, bem como os seus descendentes, além de apresentaram níveis bastante altos de bom colesterol (HDL) – essencial na proteção contra os problemas cardiovasculares ou de hipertensão – produzem também em grande quantidade um determinado peptídeo (uma espécie de cadeia de aminoácidos), o humanin: o comum é que com a idade este peptídeo diminua e aumente o risco do surgimento de diabetes tipo 2 e de Alzheimer.

Smiling Senior Couple Doing Fitness Exercise In Park

Mas basta a genética para garantir uma vida mais longa e com saúde? Não. Vários investigadores afirmam que além de um bom par de genes, o truque está também na adoção de hábitos de vida saudável. Não fumar, não beber em excesso, praticar exercício físico regularmente e ter uma alimentação equilibrada podem levá-lo até aos 80 anos de idade: os genes tratam do resto! E, claro, não nos podemos esquecer do papel importante que têm tido as melhorias ao nível dos sistemas de saúde para que a longevidade tenha chegado onde chegou nos dias que correm.

Os avanços na biotecnologia podem levar-nos até lá

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Reverter o processo de envelhecimento através da regeneração de células tem sido um caminho muito explorado ao nível da biotecnologia (estudos que envolvem genética e medicina regenerativa, nanotecnologia e microbiologia), quer através da impressão 3D, do bioprinting 3D de tecidos vivos (músculos, órgãos e ossos) ou da impressão do tecido cerebral. O estudo do ADN de outros animais como as alforrecas – sabe-se que este tipo de animal possui a capacidade de regenerar as suas próprias células em caso de doença ou trauma – também tem ocupado os investigadores que se dedicam ao estudo da longevidade.

Parece então que a corrida pela tão desejada “vida eterna” está já em curso. Tentar prolongar a vida ao máximo deixou de ser apenas um tema caro aos fãs da Ficção Científica e parece agora interessar a muita gente empenhada em fazer da ficção realidade: bilionários ligados à tecnologia como Peter Thiel (co-Fundador do PayPal e primeiro investidor do Facebook), Sergey Brin (co-fundador do Google), ou Larry Ellison (co-fundador da Oracle) têm contribuído monetariamente para impulsionar vários projetos relacionados com a pesquisa biofarmacêutica, genómica e das células estaminais.

Mas estará o corpo humano preparado para o marco dos 100?

A cada ano que passa, uma pessoa que nasce vive em média mais três meses que um indivíduo que nasceu no ano anterior. Mas estará o corpo humano preparado para enfrentar uma vida que dure 100 anos ou até mais? De facto, a longevidade do corpo humano, para lá da fase reprodutora, não parece ser uma prioridade para a nossa Natureza. Estudos do National Institute on Aging mostram que a evolução privilegia a força, a inteligência, os reflexos, o interesse sexual mas não um organismo que continue a trabalhar por muitos anos.

É como se, a partir de certa idade, o nosso organismo deixasse de se adaptar e já não conseguisse dar a resposta adequada a determinadas situações decorrentes do envelhecimento. A forma como processa o cálcio ao longo da vida é um bom exemplo. Para um corpo em crescimento o cálcio é fundamental, por isso o nosso organismo está preparado para metabolizá-lo. No fim da vida, o excesso de cálcio pode ser um inimigo fatal para o sistema circulatório, mas nem por isso o corpo humano se ajustou para prevenir a acumulação deste elemento nas artérias. O mesmo acontece com a testosterona: esta hormona é essencial nos jovens mas em homens mais velhos é um fator de risco no surgimento de cancro na próstata. Mais uma vez, o corpo humano “falha” em ajustar-se às necessidades da idade avançada.

Ou seja, de certa forma estamos a contrariar o processo natural das coisas, um facto que os investigadores não poderão ignorar neste caminho para uma vida mais longa. Como em tantos outros temas da Ciência, aqui as perguntas são ainda mais que as respostas, mas uma coisa é certa: a porta da longevidade já foi aberta.

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