Saúde

Será o intestino o nosso segundo cérebro?

17 Agosto, 2016

No sistema digestivo há mais vida para além da digestão.

Assim o provam os estudos sobre as bactérias intestinais.


Microbioma intestinal: 100 triliões de bactérias que influenciam o que somos

São microrganismos, mas quase competem em protagonismo com os principais órgãos do sistema digestivo, como o estômago ou os intestinos. Os cerca de 100 triliões de bactérias que habitam o nosso trato gastrointestinal têm ganho a atenção dos investigadores nos últimos anos, já que parecem fazer bastante mais do que apenas ajudar na digestão dos alimentos e produzir vitaminas. Há estudos que têm vindo a mostrar a enorme influência que estas bactérias desempenham na forma como pensamos e nos sentimos.

A influência do microbioma intestinal – o nome que é dado a este ecossistema de bactérias – no nosso humor e até em doenças como cancro, depressão e o autismo está ainda em fase de estudo, mas investigações recentes têm chegado a conclusões no mínimo interessantes. Uma delas está relacionada com a ansiedade: uma publicação na Nature Communications sugere que os sintomas de ansiedade provocados pela exposição ao stress ou trauma no início de vida se revelam na idade adulta devido à presença deste tipo de germes no intestino.

 Alimentar a família bacteriana

Human Intestine AnatomyCusta a acreditar que microrganismos tenham este peso todo na nossa vida? A verdade é que estas bactérias também têm a sua dose de culpa num problema do sistema digestivo bem conhecido no nosso dia-a-dia: a obstipação. Já reparou que a frequência com que vai à casa de banho diminui quando está em viagem? Trata-se, em parte, da reação do microbioma à mudança de ambiente, de rotinas, horários e hábitos alimentares.

É claro que a alimentação desempenha um papel importante na saúde da nossa flora intestinal que, como vimos, pode ter mais influência no nosso bem-estar do que parece à primeira vista.

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Nos últimos anos tem-se falado muito dos benefícios dos alimentos probióticos e prebióticos e a própria Organização Mundial de Saúde reconheceu as vantagens de incluí-los na dieta. Apesar do nome estranho, os probióticos estão, na realidade, presentes em alimentos muito comuns: estes microorganismos podem ser encontrados em iogurtes, no chocolate preto ou em pepinos de conserva. Já as batatas, a chicória, o alho-porro, os espargos, o alho e as alcachofras são ricos em prébióticos, fibras que alimentam as bactéricas do cólon e equilibram a flora intestinal.

Muito está ainda por descobrir sobre a influência das bactérias do intestino no nosso organismo, cérebro incluído. As mais recentes investigações parecem apontar para a existência de interações entre o microbioma intestinal e o cérebro, mas ainda há um longo caminho para se perceber exatamente como é que isto acontece, em que circunstâncias e, claro, que importância têm no desenvolvimento humano e na nossa saúde.

Há neurónios… no intestino!

Ao longo de sete metros de comprimento, o intestino esconde ainda outras surpresas. Sabia que este órgão é constituído por 500 milhões de neurónios, dois biliões de bactérias e dez milhões de genes? Leu bem: existem neurónios… no intestino. Por esta razão, alguns investigadores começaram a referir-se ao intestino como “o segundo cérebro” do corpo humano.

Estes neurónios presentes no intestino fazem parte do sistema nervoso entérico, que controla as funções gastrointestinais de forma independente. O intestino é, assim, um órgão do corpo humano capaz de executar funções alheias ao sistema nervoso central. Isto é, o intestino produz estímulos entre os neurónios sensitivos, associativos e motores que levam vários especialistas na área a concluir que se trata de um órgão inteligente que “pensa”, toma decisões e executa diariamente funções que afetam o nosso organismo como um todo.

Os investigadores esclarecem, no entanto, que os grandes processos de pensamento continuam a ser da responsabilidade do cérebro – o que está alojado no nosso crânio – e que é importante não confundir uma coisa com a outra.

O que os estudos sobre o “segundo cérebro” têm demonstrado é que é possível que uma boa parte das nossas emoções possam ser influenciadas pelo que se passa no nosso trato gastro-intestinal. Conhece a sensação de “borboletas no estômago”? Todas estas descobertas científicas parecem mostrar que podemos, de facto, “sentir as nossas entranhas” e lançam importantes pistas sobre como aproveitar este conhecimento para melhorar o bem-estar geral do nosso organismo.

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