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Marie Curie: Radiografia de uma pioneira

18 Julho, 2016

Primeira e única mulher a ganhar dois prémios Nobel em áreas científicas distintas (Física e Química), Marie Curie foi pioneira nos estudos da radiação. Num mundo à época dominado por homens, como é que isto foi possível?


A desbravar os caminhos da Física e da Química

marie_curieEm finais do século XIX, quando o acesso a muitas universidades da Europa era vedado às mulheres, Marie Curie conseguiu um dos seus grandes objetivos: com apenas 24 anos, e desafiando todas as probabilidades, trocou a sua cidade Natal, Varsóvia, por Paris onde pode cimentar os seus estudos nas áreas da física, matemática e química e dar asas às suas investigações.

No entanto, o caminho não foi nada fácil. Para sobreviver, teve que estudar durante o dia e dar aulas à noite mas sabe-se que passava tanta fome que chegava mesmo a desmaiar. À falta de recursos económicos somava-se a falta de meios para levar a cabo o seu labor: começou a trabalhar num laboratório improvisado que reunia poucas condições e cujos instrumentos não eram conhecidos propriamente pela sua sofisticação.

Apesar de todas as dificuldades, o trabalho que desenvolveu entre 1896 e 1921 deu os seus frutos e seguiu-se conquista atrás de conquista: aprofundou e cunhou pela primeira vez a teoria da relatividade,  descobriu não um mas três elementos químicos – o rádio, o polónio e o tório – e conseguiu desenvolver as técnicas essenciais para isolar isótopos radioativos.

Sem Curie não haveria radioterapia nem radiografias

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Como seria o mundo que conhecemos sem estas descobertas? Se pensarmos bem Marie Curie durante as suas investigações descobriu muito mais do que apenas uma teoria ou um novo elemento químico: com a sua aplicação direta à radioterapia, abriu-se uma luz ao fundo do túnel para o tratamento de muitos doentes oncológicos.

E é graças à cientista que é possível conservar alimentos. Surpreendido? Pode parecer estranho, mas a radiação é um método muito utilizado para atrasar a decomposição e esterilizar frutas e vegetais. O princípio é o mesmo quer se trate da esterilização de equipamento médico ou da fabricação de cosméticos – o processo de irradiação garante não só que as bactérias sejam completamente eliminadas como impede que estas se voltem a reproduzir.

Além disso, será que já se apercebeu que sem a cientista Marie Curie não haveria radiografias?

Marie Curie e os homens da sua vida

Desde que nasceu, em 1867, que Marie Curie conviveu de perto com aquele que terá despoletado a sua paixão pela física e a matemática. Falamos do seu pai e também professor de física, Władysław Skłodowski, que nunca duvidou do potencial da filha. De tal forma que chegou mesmo a levar às escondidas instrumentos de laboratório para a casa onde viviam, após as autoridades russas terem proibido o ensino desta disciplina em escolas polacas, durante a restauração da independência da Polónia

O pai não foi o único homem a acreditar em Marie Curie. Estávamos no ano de 1896 quando o físico Antoine Henri Becquerel a incentiva a estudar as radiações emitidas pelos sais de urânio. Mas é ao lado do marido, Pierre Curie, que a cientista dá os primeiros passos no isolamento de dois novos elementos químicos: o polónio – designação atribuída em honra das suas raízes – e o rádio. Passados sete anos aconteceu o inesperado: ganhou o Nobel da Física. E não só. Seguiu-se o Nobel da Química, em reconhecimento dos seus feitos na área.

Em 1906 a vida da física mudou pelos piores motivos. O homem que era dono do seu coração e que esteve sempre ao lado de todas as suas descobertas científicas acabaria por falecer num trágico acidente. Mas, como se costuma dizer, a vida não pára. Marie Curie acabaria por nesse mesmo ano ocupar o lugar de Pierre como professora de Física Geral, na Faculdade de Ciências. A primeira mulher na história da instituição.

Apesar de ter tido uma importância inegável para a Ciência, Marie Curie ficou conhecida por viver uma vida modesta e jamais desejar os lucros das suas descobertas. Afinal, foi toda a vida fiel a si própria e “nunca se deixou corromper pela fama”, como dizia Einstein.

“Nada na vida é para ser temido. É tudo somente para ser entendido”

Por ironia do destino, a cientista acabou por morrer de leucemia devido à exposição alargada à radioatividade: em grande parte durante a preparação de medicamentos para tratar militares feridos e a montagem de unidades móveis de raio-x, ao longo da Primeira Guerra Mundial.

Diz-se que Marie Curie sempre dividiu a humanidade entre os homens práticos, que trabalham em função dos próprios interesses, e os sonhadores, que perseguem um apelo interior. Ela pertenceu claro, aos últimos. Partiu com 66 anos e pediu apenas que aos sonhadores fossem dadas condições para viverem “livremente devotados ao serviço da investigação científica”.

Marie Curie descansa até aos dias hoje no Panteão de Paris e ficará para sempre na história como a primeira mulher a conquistar aí um lugar. Para trás deixou o seu legado e a Fundação Curie para que outros possam dar continuidade à investigação do cancro e à missão de cuidar de todos nós.

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